CURUMIM

Este blog é dedicado ao universo maravilhoso e às vezes um tanto àrduo da maternidade. Mães, pais, amigos, tios, avós, padrinhos, primos ou simplesmente pessoas que amam crianças e valorizam a infância, estão convidados a sugerir, opinar, discordar, comentar e compartilhar essa experiência.

Peço clemência aos patrulheiros da língua portuguesa pelos erros que virei a cometer e solicito generosamente que vejam além deles.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Capítulo Final


- Mas, Douradinha, será que meus pais não vão ficar zangados comigo? Afinal, saí de casa sem avisá-los.
- Pode ser que fiquem, mas eles o amam e vão compreendê-lo.É um bom filho, um bom irmão e um netinho muito amoroso. Estava confuso e triste, por isso agiu sem pensar. E além do mais, todos os perigos porque passou o tornaram mais corajoso. E eles vão ficar contentes com isso. Agora, meu amiguinho, nunca se esqueça de uma coisa: o conhecimento, o dom, só faz sentido quando pudermos passá-lo ao maior número de pessoas, no seu caso, de grilinhos. Vá e seja feliz!
- É uma pena que não conseguirei chegar a tempo para o jantar, estou com muita fome!
- Nisso eu posso ajudá-lo! – e, antes de partir voando entre as árvores, apontou sua varinha mágica para o grilinho e disse:

Forças serenas do céu,
Brilho da lua e do mar,
Faça esse pequeno grilinho,
Chegar a tempo para o jantar!

A família de Onofre o recebeu com grande festa e seu pai, emocionado, o levou até a praça principal para mostrá-lo aos vizinhos. Sensibilizados pela alegria desse reencontro, os grilos esqueceram de qualquer desavença e comprenderam que mais valia um grilhinho desafinado do que um desaparecido. Onofre, feliz por estar de volta se dirigiu até o centro da praça e desatou a cantar uma bela canção. Os grilos, não acreditando no que estavam ouvindo, mal piscavam. Quando Onofre terminou, ouviu-se aplausos e assobios. A cidade dos grilos nunca mais foi a mesma. Todos ficaram encantados com a linda voz do antigo grilinho desafinado. Onofre se tornou o maior cantor de todos os tempos, orgulhando sua família e amigos e, junto com Dona Mariquinha, que havia regressado à colônia por que achou uma bobagem ter partido, abriu uma nova escola para todos que quisessem aprender a cantar com alma, como lhe ensinou sua querida e inesquecível amiga, a fada Douradinha.


FIM

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

- Onofre eu não sei nadar, por isso vou chamar um amigo para ajudá-lo daqui em diante. Para que ele possa entendê-lo é necessário que respire tranqüilamente antes de cada frase e vá soltando o ar devagarinho. Assim sua voz ficará mais nítida e limpa e ele o entenderá. O macaquinho deu um assobio na beira do mar e depois de alguns minutos apareceu ao longe um golfinho.
- Aquele é o Nico, meu amigo dos mares. Suba nesta folha e reme com esse galho até onde ele está. Nico o levará até as sereias. Estarei te esperando quando voltar.
Onofre remou apressadamente até o golfinho e, juntos, mergulharam na imensidão do mar. Onofre foi recebido pela rainha das sereias e contou-lhe tudo o que fizera para chegar até ali e por que buscava o cristal.
- Você precisou de muita coragem e força de vontade, pequeno grilinho. Eu sabia que viria. Estava escrito: “Um pequeno ser, muito corajoso, um dia virá buscá-lo”. Sinto que busca com amor o dom de cantar e poder ajudá-lo, muito me satisfaz. Aqui está o Cristal. Para que possa invocá-lo é necessário que o coloque no totem sagrado das antigas ruínas do Fundo Proibido. Agora vá! Seu tempo está se esgotando. Ah! Mande um grande abraço para minha amiga Douradinha! - Em seguida a sereia rainha partiu para encantar algum pescador desavisado.
Onofre estava aturdido com tudo o que acontecera. Conseguira o Cristal. Nem acreditava. Guardou-o em uma bolsa e para não perder tempo subiu no amigo golfinho e partiu. O macaquinho o esperava e o levou de volta ao Fundo Proibido. Assim que chegou às antigas ruínas depositou o cristal em um buraco na base do totem e imediatamente um forte luz emanou do cristal. Nem parecia a mesma pedra, brilhava intensamente. Do meio da luz, Onofre ouviu uma voz muito poderosa.
- Em que posso ajudá-lo pequena criatura? Encontrastes o cristal. O que buscas?
Onofre contou sobre seu sonho e toda a sua luta para realizá-lo.
A voz permaneceu em silêncio por alguns segundos e em seguida muito serenamente disse:
- O Cristal Revelador revela os caminhos para a realização dos sonhos, mas não é ele que os realiza e sim as criaturas que buscam com verdade e amor vencer seus próprios limites. Com a preocupação em conseguir achar o Cristal não percebeu que durante a caminhada sua voz se transformou. Para conversar com os animais você teve que treinar o agudo, o grave, a respiração, tudo o que um aspirante a cantor precisa fazer para educar sua voz, que se tornou mais melodiosa, encorpada, vigorosa. Você não precisa mais do cristal, já encontrou seu destino. Mas lembre-se, será sua dedicação que fará de você um grande cantor.
Em seguida, o Cristal Revelador desapareceu do lugar onde estava. Onofre achou que tudo o que ocorrera não passara de um sonho, mas o amigo macaquinho estava lá para provar que havia sido real. Se despediu do querido amigo e partiu para o encontro com Douradinha. Achou-a cercada por um monte de fadinhas, cada uma mais bonita que a outra. Contou-lhe emocionado tudo o que acontecera e Douradinha olhando-o com ternura disse:
- O poder para realizar nossos sonhos está dentro de nós e você compreendeu isso. Estou muito feliz por você. Mas agora que encontrou o que buscava precisa voltar para casa. Sua família o espera com muitas saudades.
- Mas, Douradinha, será que meus pais não vão ficar zangados comigo? Afinal, saí de casa sem avisá-los.
- Pode ser que fiquem, mas eles o amam e vão compreendê-lo.É um bom filho, um bom irmão e um netinho muito amoroso. Estava confuso e triste, por isso agiu sem pensar. E além do mais, todos os perigos porque passou o tornaram mais corajoso. E eles vão ficar contentes com isso. Agora, meu amiguinho, nunca se esqueça de uma coisa: o conhecimento, o dom, só faz sentido quando pudermos passá-lo ao maior número de pessoas, no seu caso, de grilinhos. Vá e seja feliz!
- É uma pena que não conseguirei chegar a tempo para o jantar, estou com muita fome!
- Nisso eu posso ajudá-lo! – e, antes de partir voando entre as árvores, apontou sua varinha mágica para o grilinho e disse:

Forças serenas do céu,
Brilho da lua e do mar,
Faça esse pequeno grilinho,
Chegar a tempo para o jantar!

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Onofre, o grilinho desafinado - Cap. V


- Onofre, alguns nascem com o dom de cantar e outros precisam se dedicar muito para conseguí-lo, nem por isso são menos merecedores ou talentosos. Se quer aprender a cantar tenho como ajudá-lo, mas para isso precisará vencer um desafio.
- Um desafio? Os olhos do pequeno grilinho brilharam: o que eu preciso fazer, Douradinha? Diga!
- Há muitos séculos atrás um rei de um país distante participou de uma caçada nessas terras. Durante o evento, foi vítima de um bando de salteadores, que lhe roubaram, dentre vários pertences, o Cristal Revelador, um cristal encantado que tinha o poder de revelar às pessoas o caminho para a realização de seus sonhos. Os salteadores, não sabendo do poder do cristal e confundindo-o com uma pedra sem valor pelo seu pouco brilho, o jogaram fora. Desde então nunca mais ninguém ouviu falar do Cristal. O rei, inconformado, organizou inúmeras expedições para encontrá-lo, mas isso nunca aconteceu. Esse é o desafio: encontre o Cristal e saberá como realizar seu sonho.
- Mas Douradinha, se um rei não encontrou o Cristal, como eu vou conseguir encontrar?
- Vá e ouça a voz do seu coração. Ela lhe indicará o caminho. Nos encontraremos amanhã ao cair da tarde nesse mesmo lugar. Após dizer essas palavras, Douradinha desapareceu voando entre as árvores.
Onofre estava assustado, mas pensou que se quisesse alcançar seu sonho tinha que começar a lutar por ele. Respirou fundo e entrou na mata. Procurou atrás de cada árvore, folhagem ou pedra que encontrava. Vagou durante toda a madrugada e nada encontrou. Cansado e com muita sede parou para descansar. De repente, ouviu uma risada. Escondeu-se atrás de uns arbustos e percebeu um macaquinho olhando-o curiosamente.
- Oi, Macaquinho! Você me assustou.
- O que faz perdido na floresta? - perguntou o macaquinho desconfiado. Tinha um voz diferente, aguda.
- Não estou perdido. Estou a procura do meu destino.
- O quê? Não entendi. Pra falar comigo, você têm que falar mais agudo. Só consigo entender sons agudos.
Então, Onofre repetiu agudamente o que havia dito e revelou ao macaquinho toda sua história. O macaquinho ouviu a tudo atentamente e no final lembrou-se de que já havia ouvido de sua avó histórias sobre o Cristal Revelador. Segundo ela, o cristal fora encontrado pelos animais da floresta, que cientes do seu poder, mantinham-no guardado num lugar secreto, sob a vigilância de um ser encantado.
- Onde encontraremos um ser encantado no meio dessa floresta? Perguntou Onofre.
- Grilinho, as florestas são cheias de seres encantados. Há gnomos, fadas, elfos, duendes e outros. Temos que descobrir qual deles está guardando o Cristal. Acho que sei quem pode nos ajudar: Joca, o rinoceronte caolho.
- Um rinoceronte caolho?
- Sim. Um amigo de minha mãe. Joca ficou caolho depois de uma briga com um outro rinoceronte. É muito sábio e ajuda todos os animais que o procuram. Conhece muitas histórias. Deve ter alguma pista sobre o Cristal. Vamos procurá-lo!
Reiniciaram a jornada e depois de muita caminhada encontraram o rinoceronte perto de um rio lamacento. Onofre ficou intimidado pelo tamanho do mamífero, mas assim que sentiu seu olhar bondoso o medo desapareceu.
- Onofre, a briga que Joca teve com o outro rinoceronte afetou sua audição impedindo - o de entender alguns sons, principalmente o agudo, por isso é preciso que converse com ele com voz grave.
Onofre sentiu pena do grandalhão, mas apressou-se em lhe contar sua história esperando que ele pudesse ajudá-lo. O rinoceronte, muito solene, revelou que a única pista que podia dar é que o ser encantado que guardava o Cristal possuia o dom que ele buscava.
- Busco o dom de cantar, então quem será o ser encantado que guarda o cristal?
- Vamos pensar juntos - disse um macaquinho ansioso por ajudar.
- Você falou em elfos, duendes, gnomos e fadas. Não me lembro de ouvir que algum deles são reconhecidos como grandes cantores. Deve ser algum outro ser encantado. Ah! Macaquinho estamos próximos do mar?
- Não, mas há um pequeno rio que ao norte deságua no mar. Por quê?
- De todos os seres encantados que já ouvi falar são as sereias que notadamente possuem o dom de cantar.
- É verdade!Amigo, se estiver certo agora entendo porque o rei nunca encontrou o Cristal. Ele procurou no lugar errado. É um longo caminho até lá, por isso se quiser encontrar o Cristal será necessário que suba em minhas costas para que cheguemos a tempo. Vamos!
O grilinho fez o que o macaquinho sugerira e juntos partiram pulando de galho em galho em busca da mar. A tarde já começava a cair quando ouviram o barulho forte das ondas quebrando nas pedras.
- Onofre eu não sei nadar, por isso vou chamar um amigo para ajudá-lo daqui em diante. Para que ele possa entendê-lo é necessário que respire tranqüilamente antes de cada frase e vá soltando o ar devagarinho. Assim sua voz ficará mais nítida e limpa e ele o entenderá. O macaquinho deu um assobio na beira do mar e depois de alguns minutos apareceu ao longe um golfinho.
- Aquele é o Nico, meu amigo dos mares. Suba nesta folha e reme com esse galho até onde ele está. Nico o levará até as sereias. Estarei te esperando quando voltar.
Onofre remou apressadamente até o golfinho e, juntos, mergulharam na imensidão do mar. ....

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Onofre, o grilinho desafinado - Cap. IV


Onofre, o grilinho desafinado - Cap. IV

Onofre achava Dona Mariquinha uma professora muito exigente. Às vezes lhe pedia uma nota e, quando ele não conseguia alcançar o tom, ralhava e o colocava de castigo. Nessas horas, Sopraninha sentia pena, mas não podia fazer nada e esperava. Depois de meses de aula e muito pouco progresso, a cidade inteira estava certa de que Onofre era mesmo um fracasso. Até Dona Mariquinha, se dando por vencida, foi até a casa de Onofre e o entregou a seu pai. Informou que fecharia sua escola, pois nunca em sua vida havia tido tamanho insucesso. Iria embora e nunca mais voltaria.
Todos na cidade culparam Onofre pela partida de Dona Mariquinha. O grilhinho, completamente desolado, saiu a vagar pelas ruas da colônia e distraído, não percebeu que entrara no Fundo Proibido, um lugar que tinha este nome porque era um fundão que não acabava mais e proibido para todos da colônia. Impedido de enxergar pela escuridão, Onofre acabou caindo em um grande buraco. Quando se deu conta de onde estava começou a chorar:
- Eu tenho medo do escuro. Alguém me ajude! Papai, mamãe, Sopraninha?
Silêncio total. Um silêncio aterrador. Onofre continuava a chorar:
- Socorro!
De repente, ouviu um farfalhar de folhas e quando teve coragem de olhar, quase desmaiou de susto ao ver entrar voando pelo buraco, uma fadinha pequenininha e dourada como a luz do sol.
- Não tenha medo, querido grilinho. Não lhe farei mal. Ouvi seus chamados e vim ajudá-lo.
Ainda receoso, Onofre perguntou:
- Você é uma fada?
- Sim! Meu nome é Douradinha e sou a fada que protege as pequenas criaturinhas perdidas.
- Nossa! Eu não sabia que existia uma fada para esses casos.
- Existem milhares de fadas nos mundo. Cada qual tem uma responsabilidade. A minha é cuidar dos pequeninos como você. Agora, me dê sua mão. Vou tirá-lo daí.
Como num passe de mágica a fadinha tirou o grilhinho do grande buraco.
- Obrigado! Onofre reparou que a voz da fadinha era doce e melodiosa. Uma voz tão linda como nunca ouvira. Não conseguindo se conter comentou:
- Sua voz é belíssima! Parece que você canta quando fala!
Douradinha deu uma gargalhada:
- Como é o seu nome, pequeno grilinho?
- Onofre. Eu me chamo Onofre, da família Boa de Canto.
- Nome curioso o seu. Eu venho de um país encantado, onde cada fadinha - e são milhares - tem um tipo de voz. Cada uma mais bela que a outra.
- A sua deve ser a mais bonita! Que pena que nem todo mundo tem essa sorte - disse o grilinho muito triste.
- Você também deve ser um bom cantor, senão não teria esse nome.
- É esse o meu problema! Venho de uma família de excelentes cantores. Alguns de meus primos, já cantaram até em outras florestas, uma honra entre os meus. Agora eu, sou um fracasso. Quando canto, espanto os grilinhos. Envergonhei meu pai em praça pública. Nunca vou esquecer, por isso fugi. Não quero ser uma desonra para minha família.
- Um filho nunca é uma desonra para um pai. Sua família deve estar preocupadíssima com sua demora.
- Acho que depois dos meus fracassos, eles nem se importam mais.
- Não diga bobagem! Vou lhe mostrar uma coisa:
- Scalabum! Schatucutum!
Após dizer essas palavras, surgiu do meio de uns arbustos, uma pequena árvore. Em sua copa transparente, Onofre viu seus pais desolados e com umas carinhas muito tristes.
- Papai, mamãe, estão me vendo? - perguntou Onofre, todo agitado.
- Não, querido! Eles não podem vê-lo, nem ouví-lo. Choram porque não sabem onde está. Você precisa voltar!
- Mas eu não sei o caminho! Estou perdido!
- Calma, Onofre! Vou ajudá-lo!! Estou aqui para isso.
- Mas se eu voltar nada vai mudar. Vou continuar a ser um grilinho desafinado!
- Onofre, alguns nascem com o dom de cantar e outros precisam se dedicar muito para conseguí-lo, nem por isso são menos merecedores ou talentosos. Se quer aprender a cantar tenho como ajudá-lo, mas para isso precisará vencer um desafio.
- Um desafio? Os olhos do pequeno grilinho brilharam: o que eu preciso fazer, Douradinha? Diga!

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Onofre, o grilinho desafinado - Cap. III


Capítulo III

Onofre compreendeu então o que seu pai queria. Pensou que se era tão importante pra ele, cantaria. Apesar de não saber direito o que era cantar. Ah! Lembrou que toda vez que sua mãe ia colocá-lo na cama, fazia biquinho e desatava a soltar um som bem bonitinho. Achou que cantar só podia ser isso. Vendo que não tinha como escapar, resolveu começar logo.
Silêncio total. Os grilinhos, de olhos fechados, mal respiravam.
Encheu-se de coragem, respirou fundo, fez um lindo biquinho e ... nada aconteceu!
Um burburinho tomou conta da platéia. Todos perguntavam o que tinha acontecido, se alguém ouvira alguma coisa, teve grilo que desconfiou que não tinha lavado o ouvido direito. Depois de uma falação danada, Sr. Josué pediu novamente silêncio, dizendo que o pobre do Onofrinho precisava se concentrar. A multidão obedeceu sem pestanejar, afinal, estavam ali para ouví-lo cantar.
O grilinho repetiu tudo o que fizera anteriormente e, desta vez, algo aconteceu. Um ruído estranho e desafinado, parecendo porta rangendo, saiu da boca de Onofre. Assombro total.
Os grilinhos começaram a se entreolhar e a se perguntar:
- Vocês ouviram?
- Será que foi um tremor de terra?
- Digam-me que eu não ouvi o que acho que ouvi! - disse espantada, Dona Loló, a fofoqueira.
- Um desafinado! Que vergonha! A família “Boa de Canto” tem um filho desafinado, que não encanta e sim espanta! Sorte? Ele vai é me dar mais azar, isso sim. Vou me embora. E lá se foi, bufando e pisando duro.
Onofre, não entendendo direito o que havia acontecido, olhou para trás e viu a tristeza estampada no rosto de sua família. Seu pai, debruçado, murmurava:
- Não pode ser! Isso nunca aconteceu em nossa família. É uma desonra! Estou acabado! Que vergonha!
Sentindo que devia ter feito alguma coisa errada, o grilinho foi até seu pai, dando uns pulinhos curtinhos (porque ainda era muito bebê) e murmurou baixinho:
- Desculpe! - e desatou a chorar.
Dona Maviosa, voz maravilhosa, sentindo a tristeza de seu filho o abraçou e, como toda a mãe do mundo, independente de ser bicho, inseto ou gente, acalmou seu pequeno coração.
A multidão, ou melhor, o grileiro, começou a se dispersar, estarrecido com o ocorrido. No outro dia, a família “Boa de Canto” era motivo da conversa em qualquer rodinha que se visse. Saiu nos jornais, televisão, rádio, enfim, só se falava no triste acontecimento. O prefeito João Grilo, declarou luto oficial de três dias.
Em casa, Sr. Josué, agora mais calmo, refletia sobre como resolver tão delicada situação. Seu compadre Gororó foi quem lhe deu uma idéia:
- É melhor colocá-lo o mais rápido possível numa aula de canto. É a única solução.
Resignado, o pai de Onofre mandou imediatamente matricular seu filho na escola de Dona Mariquinha, a professora mais exigente da colônia. Sopraninha, que mudara de idéia e agora vivia grudada em seu irmãozinho, iria acompanhá-lo em todas as aulas.
Onofre achava Dona Mariquinha uma professora muito exigente. Às vezes lhe pedia uma nota e, quando ele não conseguia alcançar o tom, ralhava e o colocava de castigo. Nessas horas, Sopraninha sentia pena, mas não podia fazer nada e esperava. Depois de meses de aula e muito pouco progresso, a cidade inteira estava certa de que Onofre era mesmo um fracasso. Até Dona Mariquinha, se dando por vencida, foi até a casa de Onofre e o entregou a seu pai. Informou que fecharia sua escola, pois nunca em sua vida havia tido tamanho insucesso. Iria embora e nunca mais voltaria.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Onofre, o grilinho desafinado - Cap. II


Abriu a porta devagarinho e ficou muito, mas muito emocionado quando viu Dona Maviosa, voz maravilhosa, segurando um montinho de pano enrolado. Foi chegando de mansinho, beijou a esposa e deu uma espiadinha na “trouxinha”. Reparou que ele tinha olhos pretos como jabuticaba. Sua boquinha era pequenininha e carnudinha, mas tinha aquele traço comum a todos na família. O lábio superior era, no cantinho, um pouco levantado. Teve então a certeza de que ele seria um grande cantor.
- Oi, eu sou o seu papai!
Virando para sua sogra perguntou:
- Ele não é a minha cara?
Vovó Alaydes, torcendo um pouco o nariz, respondeu:
- Ainda é muito cedo para saber! - Coisas de sogra.
Sr. Josué, ainda bobo, nem prestou atenção. Continuava a olhar e admirar o seu rebento. Resolveu chamá-lo, Onofre. Em homenagem a um grande professor de canto lírico que tivera na escola. Dona Maviosa aprovou e disse que parecia nome de artista.
O pai, emocionado, anunciou da janela de sua pequena casa que seu filho nascera. Foi uma festa. Todos vieram cumprimentá-lo e desejar saúde e felicidade ao pequeno Onofre. Como era comum, informou ao grilos que apresentaria seu filho em uma semana. Explico: no mundo dos humanos existem rituais religiosos como o batismo, a crisma, a primeira comunhão, o casamento e etc. No mundo dos grilos também, só que são diferentes. O mais importante deles é a apresentação do recém-nascido à comunidade. Acontece uma semana depois do nascimento. É nesse dia que o bebê, no caso Onofre, entoaria seu primeiro canto. E o primeiro canto de um membro dessa família, era esperado por todos com muita ansiedade, porque além de lindo e suave, trazia sorte a todos que o ouviam. Uma semana depois, foi erguido um palanque no meio da praça central, em frente à igreja. Todos vestiram suas melhores roupas, se perfumaram, se embonecaram e foram cedo em busca dos melhores lugares. Uma parte da população da colônia acreditava que quanto mais perto do grilinho ficasse, mais sorte teria. Isso nunca foi comprovado.
Quando toda a população já se encontrava na praça - e eram mais de dois mil - o sino tocou três vezes e toda a família “Boa de Canto” chegou. Sr. Josué, Dona Maviosa, Sopraninha, os primos e toda a parentada, subiu no palco. Até então, Onofre estava escondidinho, como parte do ritual. Os pais do pequeno grilinho se dirigiram ao centro do palco e sobre um altar onde se encontrava uma belíssima folha ainda com gotas de orvalho, depositaram a “trouxinha”.
Fez-se silêncio na multidão. Ninguém respirava.
Dona Maviosa, voz maravilhosa, começou então a desenrolar seu filhinho. Eram as mamães que brilhavam nesta parte. Devagar, muito devagar tirou a primeira ponta da manta que cobria o bebê. Ouviu-se então um “Oh!” - e a cada ponta que descobria mais “Ohs!” Quando Dona Maviosa tirou a última ponta e mostrou a todos seu filhinho, o povo, encantado, rompeu num mar de aplausos e assobios.
- Lindo, maravilhoso! - dizia Dona Eulália, a costureira.
- Um belo rapagão! - dizia Sr. Quindim, o açougueiro.
- Um principezinho, afirmou Dona Candinha, melhor amiga de Dona Maviosa. O que os grilos não sabiam ou não perceberam é que toda aquela gritaria havia deixado o pobrezinho completamente apavorado. Suas perninhas não paravam de tremer, seu coraçãozinho estava acelerado e ele desatou a chorar. Reagiu assim, porque afinal era só um bebê, tinha sete dias de vida, ora bolas! Depois que sua mamãe lhe abraçou e lhe deu um beijinho, parou de chorar.
- Agora que o bebê acalmou, bota ele pra cantar! Estou em uma maré de azar e espero que ele me traga sorte - resmungou o Sr. Zeferino, um grilo que todos achavam chato e rabugento.
Sr. Josué se aproximou de Onofre e disse baixinho no seu ouvido:
- Vamos, filhinho, cante! Solte sua linda voz e encante a todos!Onofre compreendeu então o que seu pai queria. Pensou que se era tão importante pra ele, cantaria. Apesar de não saber direito o que era cantar. Ah! Lembrou que toda vez que sua mãe ia colocá-lo na cama, fazia biquinho e desatava a soltar um som bem bonitinho. Achou que cantar só podia ser isso. Vendo que não tinha como escapar, resolveu começar logo...

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Onofre, o grilinho desafinado - Cap. I

Muitos amigos sabem da minha vontade de escrever livros para crianças. É um público que me inspira, emociona e motiva, mas são meus filhos sem dúvida nenhuma minha maior inspiração. Dedico essa história, que tomou de assalto minha alma e meu coração à todas as crianças e adultos que ainda guardam dentro de si a criança que um dia foram.
O texto do Onofre foi desenvolvido para um concurso de livros infantis. Não ganhei, mas acho uma história tão fofa, que tive vontade de partilhá-la com vocês. Vou publicá-la em capítulos. Deixem suas opiniões, seus olhares, suas impressões. Quem sabe algum editor goste e me faça um convite para publicá-lo. Seria demais!

ONOFRE , O GRILINHO DESAFINADO
Capítulo I
Em um matagal perto de um rio cristalino havia uma grande comunidade grileira, isto é, uma cidade de grilos. Essa seria mais uma história comum sobre grilos, se não fosse o inusitado acontecimento que atingiu a família Boa de Canto com o nascimento de um novo integrante, o pequeno Onofre.
Essa família era famosa por possuir grandes cantores. Você pode estar se perguntando: que novidade há em uma família de grilos que cantem, afinal, todos os grilos cantam. Acontece que esta família era especial. Tinha em seu clã: barítonos, sopranos, baixos, contraltos, etc. Sempre era convidada para alegrar as festas de toda a população da colônia. Só não gostava de cantar quando algum grilinho morria, porque fora a tristeza pela perda de um amigo, não podiam dar seus famosos agudos.
Tudo andava tranqüilamente até que Dona Maviosa, voz maravilhosa, reuniu a família e contou que nasceria dentro em breve mais um grilinho para alegrá-los. Todos ficaram felizes. No mesmo dia, as apostas começaram:
- Será ele um barítono, dizia o vovô Genival, todo orgulhoso.
- Nada disso, respondeu vovó Alaydes, fazendo um muxoxo. Aposto que ele será um tenor. E dos melhores.
- Eu sou o pai e tenho certeza de que meu filho será um baixo, afirmava Sr. Josué.
Em todos os lugares da colônia só se falava no nascimento do mais novo integrante da tão prestigiada família.
Chegou o grande dia. Todos acordaram cedo, limparam suas casas, aguaram as plantinhas, sacudiram os tapetes e esperaram. É, porque fora isso, não tinham muito o que fazer.
Na casa de Dona Maviosa o rebuliço era total. Sr. Josué, não parava de andar de um lado para o outro de tanta ansiedade e nervosismo. Seus compadres, Gererê e Gororó, tentavam acalmá-lo:
- Fique tranqüilo, vai dar tudo certo. Se continuar a andar assim vai abrir um buraco no chão.
Sopraninha, que era a caçulinha da família, estava meio apreensiva e sentia vontade de chorar. Seu coraçãozinho estava apertado, pois, temia que com a chegada do novo irmãozinho, todos a esquecessem. Por mais que Dona Maviosa, sua mãe, lhe dissesse que seria sempre sua princesa, ela sentia um friozinho na barriga. Agachadinha, pensando com seus botões, levou o maior susto quando vovó Alaydes entrou gritando:
- Nasceu! Nasceu! O pequerrucho nasceu!
Foi uma correria. O Sr. Josué de tão atarantado não sabia o que fazer. Andava de um lado para o outro e, de repente, começou a chorar um choro baixinho. Só que não era de tristeza, mas sim de muita felicidade. Só parou de caminhar quando seus compadres, Gererê e Gororó, lhe perguntaram se não ia ver o filho. Percebendo que estava parecendo um bobo saiu em disparada para o quarto. Abriu a porta devagarinho e ficou muito, mas muito emocionado quando viu Dona Maviosa, voz maravilhosa, segurando um montinho de pano enrolado. Foi chegando de mansinho.....