
Abriu a porta devagarinho e ficou muito, mas muito emocionado quando viu Dona Maviosa, voz maravilhosa, segurando um montinho de pano enrolado. Foi chegando de mansinho, beijou a esposa e deu uma espiadinha na “trouxinha”. Reparou que ele tinha olhos pretos como jabuticaba. Sua boquinha era pequenininha e carnudinha, mas tinha aquele traço comum a todos na família. O lábio superior era, no cantinho, um pouco levantado. Teve então a certeza de que ele seria um grande cantor.
- Oi, eu sou o seu papai!
Virando para sua sogra perguntou:
- Ele não é a minha cara?
Vovó Alaydes, torcendo um pouco o nariz, respondeu:
- Ainda é muito cedo para saber! - Coisas de sogra.
Sr. Josué, ainda bobo, nem prestou atenção. Continuava a olhar e admirar o seu rebento. Resolveu chamá-lo, Onofre. Em homenagem a um grande professor de canto lírico que tivera na escola. Dona Maviosa aprovou e disse que parecia nome de artista.
O pai, emocionado, anunciou da janela de sua pequena casa que seu filho nascera. Foi uma festa. Todos vieram cumprimentá-lo e desejar saúde e felicidade ao pequeno Onofre. Como era comum, informou ao grilos que apresentaria seu filho em uma semana. Explico: no mundo dos humanos existem rituais religiosos como o batismo, a crisma, a primeira comunhão, o casamento e etc. No mundo dos grilos também, só que são diferentes. O mais importante deles é a apresentação do recém-nascido à comunidade. Acontece uma semana depois do nascimento. É nesse dia que o bebê, no caso Onofre, entoaria seu primeiro canto. E o primeiro canto de um membro dessa família, era esperado por todos com muita ansiedade, porque além de lindo e suave, trazia sorte a todos que o ouviam. Uma semana depois, foi erguido um palanque no meio da praça central, em frente à igreja. Todos vestiram suas melhores roupas, se perfumaram, se embonecaram e foram cedo em busca dos melhores lugares. Uma parte da população da colônia acreditava que quanto mais perto do grilinho ficasse, mais sorte teria. Isso nunca foi comprovado.
Quando toda a população já se encontrava na praça - e eram mais de dois mil - o sino tocou três vezes e toda a família “Boa de Canto” chegou. Sr. Josué, Dona Maviosa, Sopraninha, os primos e toda a parentada, subiu no palco. Até então, Onofre estava escondidinho, como parte do ritual. Os pais do pequeno grilinho se dirigiram ao centro do palco e sobre um altar onde se encontrava uma belíssima folha ainda com gotas de orvalho, depositaram a “trouxinha”.
Fez-se silêncio na multidão. Ninguém respirava.
Dona Maviosa, voz maravilhosa, começou então a desenrolar seu filhinho. Eram as mamães que brilhavam nesta parte. Devagar, muito devagar tirou a primeira ponta da manta que cobria o bebê. Ouviu-se então um “Oh!” - e a cada ponta que descobria mais “Ohs!” Quando Dona Maviosa tirou a última ponta e mostrou a todos seu filhinho, o povo, encantado, rompeu num mar de aplausos e assobios.
- Lindo, maravilhoso! - dizia Dona Eulália, a costureira.
- Um belo rapagão! - dizia Sr. Quindim, o açougueiro.
- Um principezinho, afirmou Dona Candinha, melhor amiga de Dona Maviosa. O que os grilos não sabiam ou não perceberam é que toda aquela gritaria havia deixado o pobrezinho completamente apavorado. Suas perninhas não paravam de tremer, seu coraçãozinho estava acelerado e ele desatou a chorar. Reagiu assim, porque afinal era só um bebê, tinha sete dias de vida, ora bolas! Depois que sua mamãe lhe abraçou e lhe deu um beijinho, parou de chorar.
- Agora que o bebê acalmou, bota ele pra cantar! Estou em uma maré de azar e espero que ele me traga sorte - resmungou o Sr. Zeferino, um grilo que todos achavam chato e rabugento.
Sr. Josué se aproximou de Onofre e disse baixinho no seu ouvido:
- Vamos, filhinho, cante! Solte sua linda voz e encante a todos!Onofre compreendeu então o que seu pai queria. Pensou que se era tão importante pra ele, cantaria. Apesar de não saber direito o que era cantar. Ah! Lembrou que toda vez que sua mãe ia colocá-lo na cama, fazia biquinho e desatava a soltar um som bem bonitinho. Achou que cantar só podia ser isso. Vendo que não tinha como escapar, resolveu começar logo...