Meus pensamentos andam longe da minha vida, andam em uma vida que se foi. Uma vida que não conhecia e que agora me parece tão íntima, tão familiar. As vezes acordo no meio da noite e penso nela, as vezes sinto uma dor profunda por ela. É como um soluço preso na garganta. Sei que só quem passa pela experiência da perda de um filho pode falar com propriedade sobre o tamanho da cratera que se abre nos corações de pais que veêm seus filhos partirem de forma prematura, mas como mãe eu posso tentar mensurar. Tenho certeza que mesmo assim deve ser infinitamente menor do que a dor real da ausência que ficará pra sempre em suas vidas.
Não vejo a hora disso acabar. Tento passar os olhos pelo jornal sem parar para ver os últimos acontecimentos dessa novela imensamente triste, mas simplesmente não consigo. São tantas as matérias, antropólogos, psicólogos e um monte de ólogos deixam suas impressões. Sei que muito provavelmente uma criança, pobre, negra, feia, jamais ocupasse um lugar de destaque na mídia como a Isabela, mas isso não diminui o espanto pelo ocorrido. Um psicólogo comentou que precisamos que o caso seja desvendado logo para que saibamos que não fomos nós, não fomos nós. Tenho pensado nas diferenças desse caso com o caso do menino João Hélio, do Rio. Outra barbaridade contra a infância, contra a esperança e o futuro. Naquele caso, foram bandidos que fizeram tudo aquilo. De bandidos esperamos qualquer coisa, mas num caso em que alguém aparentemente normal como nós, classe média como nós, com um histórico de ser carinhoso com os filhos como muitos de nós, faz uma atrocidade dessas é como se nôs colocássemos em xeque: será que seríamos capazes de tamanha barbaridade? Por isso a urgência de respostas: não fomos nós.
Tenho me dado colo ultimamente, tenho tentado acalmar a criança que mora dentro de mim e recorrido a um dado concreto para não mergulhar na tristeza coletiva provocada por essa história. Há sete anos atrás quando vivenciava o dia-a-dia de meu irmão, paciente terminal de um câncer, para me manter lúcida, procurei um psiquiatra. Na primeira consulta ele me perguntou se havia algo que eu podia fazer para curar meu irmão. Parei pra pensar e dolorosamente respondi que não dependia de mim. Então não sinta culpa. Dê a ele o amor e o acolhimento que puder, mas não sinta culpa. Têm coisas que independem de nossa vontade. Foi aí que comecei a retomar meu caminho. Doloroso, mas necessário. É assim que tenho pensado sobre a história da Isabela. O que eu posso fazer? Somente orar por ela e pela família. Desejar que Deus e o amor de todos nós os reconforte e dê forças nesse momento tão doloroso.